Engenharia de cardápio: como montar um cardápio que vende mais

Engenharia de cardápio: como montar um cardápio que vende mais

Por , Founder da Kooc · Publicado em

Engenharia de cardápio é olhar cada prato por dois números: quanto ele vende e quanto ele deixa de dinheiro depois de pagar o próprio custo. Com esses dois números, todo item cai num de quatro grupos (estrela, burro de carga, quebra-cabeça ou cão), e cada grupo pede uma ação diferente no cardápio: destacar, reprecificar, divulgar melhor ou tirar.

Na prática, você precisa de três coisas: o histórico de vendas por prato (um mês já serve), a ficha técnica com o custo de cada porção e o preço de venda. É o mesmo levantamento que o infográfico de engenharia de cardápio do Sebrae RS pede antes de qualquer mudança.

O objetivo não é ter o cardápio mais bonito da rua. É fazer o cliente escolher com mais frequência os pratos que sustentam o caixa, sem que ele sinta que está sendo empurrado para alguma coisa.

De onde vem a matriz

O método foi criado em 1982 por Michael Kasavana e Donald Smith, professores da Universidade Estadual de Michigan, como lembra um material de engenharia de menu publicado pela Abrasel. A ideia continua a mesma: cruzar popularidade com lucratividade, prato a prato, dentro de cada grupo do cardápio.

Os quatro quadrantes, nos nomes que o Sebrae usa:

Como calcular popularidade e margem

Faça a conta por grupo (entradas com entradas, pratos principais com pratos principais). Comparar sobremesa com picanha não diz nada.

  1. Popularidade de cada prato = vendas do prato ÷ total de pratos vendidos no grupo.
  2. Linha de corte da popularidade: a forma mais simples é 100% dividido pelo número de pratos do grupo. Com seis pratos, a média é 16,7%. Quem fica igual ou acima é popular. Alguns materiais usam 70% dessa média como corte, para não punir grupos com muitos itens; escolha uma regra e mantenha nas próximas revisões.
  3. Margem de contribuição (MC) de cada prato = preço de venda menos custo da porção, em reais.
  4. Linha de corte da margem: soma da MC de todas as unidades vendidas no grupo ÷ total de pratos vendidos. Na prática, é a margem média ponderada pelas vendas, a mesma conta do material da Abrasel citado acima.

Com as duas linhas, cada prato cai num quadrante.

Exemplo numérico (ilustrativo)

Os números abaixo foram inventados para o exemplo. Não são dados de mercado nem de nenhum restaurante real; servem só para mostrar a conta funcionando.

Um restaurante vendeu 1.000 pratos principais num mês, divididos entre seis pratos.

Preço, custo da porção e margem de contribuição (MC) de cada prato:

Prato Preço Custo MC
Filé à parmegiana R$ 68 R$ 22 R$ 46
Frango grelhado R$ 42 R$ 14 R$ 28
Picanha na chapa R$ 89 R$ 45 R$ 44
Penne ao sugo R$ 39 R$ 10 R$ 29
Moqueca de peixe R$ 72 R$ 24 R$ 48
Risoto de camarão R$ 78 R$ 30 R$ 48

Vendas no mês e popularidade no grupo:

Prato Vendas Popularidade
Filé à parmegiana 300 30%
Frango grelhado 260 26%
Picanha na chapa 180 18%
Penne ao sugo 130 13%
Moqueca de peixe 70 7%
Risoto de camarão 60 6%

A linha de popularidade é 16,7% (seis pratos). A margem média ponderada dá R$ 39,01: somando MC vezes vendas de cada prato, chega-se a R$ 39.010, dividido por 1.000 pratos.

Resultado:

Gráfico da matriz de engenharia de cardápio com os seis pratos do exemplo distribuídos nos quadrantes estrela, burro de carga, quebra-cabeça e cão

O que fazer com isso, no exemplo:

CMV baixo não quer dizer prato lucrativo

Aqui mora o erro mais comum. O penne tem o menor CMV da lista (o custo é só 26% do preço) e mesmo assim é o pior prato do grupo. A picanha tem o maior CMV (51%) e é estrela, porque deixa R$ 44 a cada venda e vende bem.

Percentual de custo ajuda a controlar a cozinha. Quem paga a conta de luz é a margem em reais multiplicada pelo número de pratos vendidos.

Comparação entre o CMV em percentual e a margem de contribuição em reais dos seis pratos do exemplo ilustrativo

Precificação: CMV e markup

A engenharia de cardápio parte de preços que já existem. Para definir preço de prato novo, ou revisar um burro de carga, você precisa de duas contas.

CMV do restaurante no período. O Sebrae PR usa a fórmula estoque inicial + compras do período − estoque final. Dividido pelo faturamento, dá o CMV em percentual. O mesmo artigo cita uma faixa de referência de 25% a 35% do faturamento para custo de alimentos. É referência, não regra: o número muda com o tipo de cozinha.

Custo do prato. Vem da ficha técnica: cada ingrediente, no peso que vai para o prato, vezes o custo por quilo. No e-book de precificação do Sebrae RS, um bife com fritas (arroz, feijão, bife na chapa e batata) sai a R$ 6,73 de custo.

Markup. É o número que multiplica o custo para chegar ao preço. A fórmula do Sebrae é:

Markup = 100 ÷ [100 − (despesas variáveis % + despesas fixas % + lucro desejado %)]

No exemplo de salão do mesmo e-book, as despesas variáveis somam 20,14%, as fixas 16% e o lucro desejado 10%. O markup dá 1,86, e o bife com fritas sai a R$ 6,73 × 1,86 = R$ 12,54. No delivery, o e-book refaz a conta com outras incidências (comissão de aplicativo, embalagem) e o markup sobe para 3,59. Por isso o mesmo prato não deveria ter o mesmo preço no salão e no aplicativo sem você fazer essa conta.

Composição do markup no exemplo do Sebrae RS, com despesas variáveis, despesas fixas, lucro desejado e a parte que cobre o custo do prato

Depois de chegar no preço pela conta, compare com o que o seu público aceita pagar e com a casa vizinha. O markup diz o mínimo para não perder dinheiro; o mercado diz o máximo que dá para cobrar.

Descrição de pratos: onde o quebra-cabeça vira estrela

Descrição boa não é a mais longa. É a que responde o que o cliente quer saber antes de pedir: o que vai no prato, como é feito e por que vale aquele preço.

Algumas regras que funcionam:

Se você ainda trabalha com cardápio impresso, vale conferir se a sua cidade ou estado já exige a versão física: o assunto está em cardápio físico é obrigatório?.

Depois da revisão, mantenha o cardápio atualizado

Refaça a matriz a cada seis meses, ou sempre que entrar prato novo ou o custo de um ingrediente mudar muito. É a periodicidade sugerida no infográfico do Sebrae RS.

E mantenha uma única versão do cardápio. Na Kooc, dá para importar o cardápio a partir de fotos do impresso, revisar item por item antes de gravar, e a IA manda o link desse mesmo cardápio quando o cliente pergunta no WhatsApp. Se você está comparando ferramentas, o post sobre as melhores ferramentas de IA para restaurantes ajuda a decidir.

Perguntas frequentes

Preciso de sistema para fazer engenharia de cardápio? Não. Uma planilha com vendas por prato, custo da porção e preço de venda resolve. O que importa é ter vendas por item de pelo menos um mês e uma ficha técnica atualizada; sem custo confiável, a matriz classifica errado.

Devo tirar do cardápio todo prato que cai no quadrante cão? Nem sempre. Se o prato atende um público específico, como uma opção vegetariana que traz uma mesa inteira, ele pode ficar. Nesse caso, reformule para baixar o custo ou subir a margem, e acompanhe na próxima revisão.

Qual é o CMV ideal para restaurante? O Sebrae PR cita uma faixa de referência de 25% a 35% do faturamento para custo de alimentos. Varia com o tipo de cozinha, então use como ponto de partida e olhe também a margem em reais de cada prato, não só o percentual.